Cose di croniche

As crónicas que saem do Cose Tante. Ou não.

Clara e Horácio

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Escrevi este texto em Julho, como requisito para me candidatar ao curso de escrita de humor das Produções Fictícias que decorreu entre Setembro e Novembro deste ano.

A Clara anda de nenúfar em nenúfar desde que conheceu o Horácio. Casam em Setembro.
Quis que o conhecesse para ver como é brilhante e maravilhoso. Jantar e cinema, para eu apreciar toda essa genialidade. Fiquei a saber que brilho para uns, é breu para outros. Ao jantar explica-nos que o céu rosado quer dizer que o dia a seguir vai ser de sol e calor. O meu ar surpreendido engana-o, admito. Mea culpa. Eu não quero acreditar que me quer ensinar isto, ele nem acredita que estou espantada com a sua sabedoria e generosidade em partilhá-la comigo. Piora quando quer falar melhor: “Quando o astro fica assim…” Os olhos da Clara brilham. Os meus faíscam. Vejo-me O-ren Ishi correndo descalça sobre a mesa, de sabre em punho e sinto-me melhor.
Vamos ver as “Cartas de Iwo Jima”: quando a minha amiga hesita, atropela-a: “são três para as cartas Hiroshima às nove e meia” pede. Finjo que não oiço. Já na sala, explica-nos que o filme é sobre a bomba do Vietname. Não oiço mais, doem-me os ouvidos ao fim de oito segundos. Arrisco dizer que fosse Hiroshima ou Iwo Jima nada tem a ver com Vietname, mas com II Guerra. Anos 40 e não 70. Não percebe: que tem Hitler a ver com isto? Sorri, condescendente. Respiro fundo e conto até 10… mil. A Clara sempre a dois palmos acima do chão, embevecida.
Convidaram-me para o casamento e começou a senda da toilette. A Clara fez questão em vir comigo. Eu não queria porque… Ora, como dizer isto sem parecer mal? A Clara não tem o mesmo gosto que eu. Digamos que sempre que usa a expressão: ”Um must da estação” seguro-me para não o completar com um: “Sim, em neverland!”. Sabe zero de roupa e penteados, de glamour e cor de rosa, purpurina e saltos altos. Usa vestidos Feno de Portugal e torna todo o penteado que lhe façam em hinos aos 80’s. Mesmo assim, acedo. É o casamento dela, há-de saber que temos gostos diferentes e respeitar isso.
Lá vamos, ruas foras, shoppings dentro. Ela flutua e ri, muito contente, a ver tules, folhos e estampados floridos.
Eu a pensar que havia canasta na esplanada ao fim da tarde, está calor e eu gosto tanto de ver as senhoras que ainda dizem “o restaurant” jogar no meio das pérolas e leques. Levo sempre o meu livro, mas deito o olho ao jogo.
Ela “olha esta, ficava-te a matar!” Eu a ver que não, que talvez me desse vontade de me matar. Eu a pensar que ainda tenho de ver a receita da tarte de cerejas para o lanche com a Maria e a Luísa. Esse sim, belo programa.
A Clara aos pulinhos por estar de casamento marcado a escolher-me polyester e tirilene em anil e violeta. Eu com náuseas.
Eu a pensar que está tanto calor que se estava bem era na praia, “Oh Clara anda lá” e ela que não, que ”tens de experimentar porque este é que é mesmo a tua cara.” Eu a ver que a minha cara não é de Arlequim e por isso “esses losangos em napa estão fora de questão, desculpar-me-ás”.
Ela sempre animada, que me vai descobrir qualquer coisa. Eu a saber que já tinha escolhido há mais de quatro horas se fosse sozinha. Mais que isso, eu a ter a certeza que nada que a Clara goste eu gosto.
Calças, vou concentrar-me em calças que é o que uso sempre. Com esta figura Boteriana nada de saias ou vestidos. Calças e qualquer coisa vistosa sem ser muito justa. Pensava tudo isto ainda na ilusão de ter algum poder de decisão, voto na matéria. Pensava e concentrava-me quando a Clara me entrega uma saia:
– É esta! E não aceito um não.
Suspiro, pego na saia e juro que depois do casamento mudo de número, nome e fechadura da porta se preciso for.
Uma saia. Há quantos anos não visto uma. Calças e calções. De ganga, veludo, fazenda, algodão, até de seda e tafetá. Mas calças e calções só.
Abro o fecho. Uma perna, depois a outra. Subo-a e aperto-a.
“Bom, fecho de lado sempre disfarça a barriga, dizem.”
A Clara ansiosa “Então, então que tal te achas?”
Uma saia ao fim de tanto tempo e porquê? Olho-me ao espelho. A explicação mesmo ali em frente a lembrar-me:
“Espero que os teus convidados gostem de Paula Rego”.
 

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Written by Marta

Dezembro 10, 2008 às 8:28 pm

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