Cose di croniche

As crónicas que saem do Cose Tante. Ou não.

Metro I (sim, eu escrevo muito sobre o metro)

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Ah fim do dia… Já a caminho de casa e do quentinho.
O metro vem tolerável hoje. Ontem esperei o seguinte que estava a abarrotar. Entro e fico já aqui neste cantinho junto da porta
1ª estação
Entra gente: dois homens e uma mulher que como eu vêm do trabalho. Ficam perto de mim e… Cheira a lixo cheira a lixo cheira a lixo – qual dos três será? Suster a respiração, não sentir, não cheirar, aplicar o ioga. Não é suor, não. Não é de quem não toma banho. É lixo de caixote.
2ª paragem
Mais gente. Será que vão sentir como eu? Ninguém vê o meu olhar aflito atrás do cachecol que subi até ao nariz? Socorro, cheira-vos mal também? Nada, ninguém reage. Parece-me mesmo ver sorrisos fazendo pouco de mim. Já quase não respiro.
3ª paragem
Não aguento, já não tenho posições para disfarçar. Tenho o queixo no pescoço e o nariz dentro do cachecol. Vou sufocar no meu próprio perfume. Sinto-me delirar mas ainda não o suficiente para gritar como era minha vontade: “Mas quem é que cheira aqui a lixo? É favor abandonar a composição. É ainda favor aderir a um banho em água aguarrás”.
4ª paragem
Sai a senhora. Sai o cheiro. Sinto um alívio enorme. Ninguém reage e apetece-me perguntar: “juram que não estavam a sentir?”. Na minha incredulidade e tranqulidade da restante carruagem prossegue a viagem.
5ª paragem
Entra mais gente. Não me importo, não cheiram mal. Ou a lixo. Depois da experîência nuclear que tive, qualquer cheiro a fim de dia de trabalho são rosas.
6ª paragem
Entram mais pessoas. E mais. E mais. Somos muitos, tantos. Há uma mala que me esmaga os rins. Há o cotovelo de alguém que se equilibra à frente dos os meus olhos e o meu peito. Estamos todos muito juntos. Há membros entrelaçados e proximidade entre rostos estranhos. Consola-me que o cheiro a lixo tenha ficado para trás.
7ª e última paragem. Finalmente. Começa o desmontar do puzzle.
– Este braço é seu?
– Não, creio que é seu. Tenho os meus comigo já.
– Ah, muito obrigado, é meu certamente então.
– Esta perna deve pertencer-lhe, minha senhora…
– Oh pois é, estava a pensar onde a teria deixado. Deixe-me tirar primeiro para poder soltar a sua.
– Muito obrigada. Creio que estou inteira já.
– Também eu. Adeuzinho então.
– Boa tarde…
Quis perguntar se não teria sentido o cheiro a lixo, se não achava inacreditável e que não era apenas um cheirar mal, mas lixo. Lixo de caixote da rua que não é despejado há dias, com cascas de fruta e batata pelo chão. Quis perguntar, mas senti-me feliz por estar inteira e longe daquele pivete nauseabundo que me pôs a vida mais em risco que este esmagamento amigável a que quase nos vamos habituando.
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Written by Marta

Janeiro 14, 2009 às 8:09 pm

Publicado em Uncategorized

2 Respostas

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  1. Também ando de Metro todos os dias mas ainda não me aconteceu isso… no Metro.Já nos autocarros, a história é outra.Ainda esta semana, ía uma mulher ao pé de mim, que cheirava não a lixo de caixote mas a uma mistura de queijo podre com sei lá o quê.E uma pessoa começa a imaginar que sítios é que não foram lavados, para se chegar àquele ponto de mal cheirice (era mesmo muito mau) e à vontade de fugir dali para fora, alia-se a vontade de vomitar.E também me pareceu que eu era a única pessoa a sentir. Não estás sozinha!:)Bjs!

    Paula

    Janeiro 15, 2009 at 11:45 am

  2. Alguém me entende! 🙂 banhos, banhos públicos como no tempo dos romanos e a coisa melhorava.bjs

    Marta

    Janeiro 17, 2009 at 5:34 pm


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