Cose di croniche

As crónicas que saem do Cose Tante. Ou não.

Tropecei hoje nisto

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É de Janeiro e escrevi-o para um workshop.

– Mas cozinha? Que engraçado não sabia. – ela fascinada.
– É, de vez em quando tem de ser, não é? – o meu sorriso muito amarelo.
– Concerteza! Que engraçado… – em delírio completo, querendo continuar.
– Tenho de ir, sim? Desculpe… – finjo a minha cerimónia.
– Ora essa. Faz favor. Que engraçado… – e vai à sua vida ainda a rir. Era a porteira do prédio que não largou a porta do elevador enquanto não percebeu que fazia eu com um saco de nozes. Das nozes chegámos ao facto de eu cozinhar, o que diz muito acerca do tempo que perdi com ela.
Cansam-me estas conversas circunstanciais com vizinhos e tenho evitado ser inconveniente… nos últimos 15 anos. Não tem sido sempre tão pacífico.
Chego a casa e, não encontrando o quebra-nozes, dou início à tarefa de partir o quilo de nozes que comprei, a martelo. Abro o saco, e parto-as sobre a pedra, dentro de um outro saco onde as cascas irão para o lixo. A minha cozinha é minimalista e imaculada, pretendo mantê-la assim.
Cascas no saco, nozes separadas na balança. Não estou há dez minutos a parti-las, quando tocam à campainha.
Abro, de martelo na mão. Um casal de vizinhos. Ela dá um passo atrás quando me vê, qual Thor.
– Tem obras cá em casa…? – Pergunta quase a medo.
– Hum…? Não, estava só a partir umas nozes.
– Ah… desculpe então. – A insatisfação com a resposta é evidente.
– Não tem importância. Boa tarde.
Dizem que as pessoas se começam a parecer umas com as outras depois de alguns anos juntas. É o caso, sempre os conheci igualmente acinzentados e malcheirosos. Enquanto fecho a porta, ainda os oiço comentar: “não é preciso esta barulheira para fazer isso… sinceramente”.
Volto às nozes. Enquanto parto, começo a perceber a injustiça na visita e nos reparos.
Mais cascas para dentro do saco, mais nozes na balança.
Penso nas obras que já houve neste prédio. Nos andares de cima, de baixo, ao lado do meu. Paredes deitadas abaixo, entulho pelas janelas, pó pela vida. Nunca disse nada.
Desta vez, esmago toda a noz tal a força com que lhe bati.
Hoje, parto umas nozes – e vou precisar de mais tempo. Para o que as quero, se preciso de 250 gr de miolo de noz, isso serão algumas 200 a 300 cascas, e vou ter de dar umas duas marteladas por noz o que dá cerca de 400 a 600 marteladas. E isto só por alto. – é este atrevimento. Aguentem que eu também tive de tolerar os vossos novos soalhos, aberturas de sala para salões, baldes de cimento que deixavam os elevadores imundos. E a minha casa estoicamente sobrevivendo a tudo.
Não me imaginavam assim. “O sr. Orlando cozinha? Que engraçado!” e vai espalhar pelo bairro todo, já sei. Como quando me viram chegar de braçadas de flores – “Faz arranjos de flores? Que curioso, não imaginava” e uma outra vez, com caixas para os bolos que fiz “Ah, para festas e casamentos? Palavra? Muito me conta.” Não imaginavam porque não lhes dei confiança para tal.
Provavelmente também não imaginam que a viagem que o Sr. Azevedo anunciou ir fazer ao deserto se ficou pelo chão do quintal da D. Adélia do rés-do-chão. E foi por bem menos que o barulho de um martelo. Apeteceu-me saber como era. Não foi emocionante como pensei. Mas suspeito que não achariam curioso se soubessem.
Acabei as nozes todas, vou preparar o lombo que já tenho fome.

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Written by Marta

Agosto 26, 2009 às 10:17 am

Publicado em Uncategorized

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